Liberdade de escolha

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Liberdade de escolha

Desde os tempos de Agostinho (354-430) teólogos cristãos argumentam sobre a natureza da vontade humana caída: Ela é totalmente caída ou apenas em parte? Pessoas como Peter Lombard (1096-1160) e Bernard of Clairvaux (1090-1153) fizeram distinções sobre diferentes tipos de necessidade, distinções que Calvino (1509-1564) usaria para explicar depois como o homem pode ser escravo do pecado e ao mesmo tempo responsável por seu pecado.
Nosso pecado, que nossa natureza caída escolhe por necessidade, também é voluntário porque a escolha é devido à nossa própria corrupção. Não existe coerção externa, compulsão externa que nos faça pecar. A vontade, ainda que ligada ao Éden, ainda é auto-determinada.
Francis Turretin (1623-1687) argumentou a respeito do mesmo efeito, postulando seis tipos diferentes de necessidade. A vontade pode ser considerada livre mesmo que esteja limitada pela necessidade moral (Juntamente com a necessidade de dependência de Deus, necessidade racional, e a necessidade do fato), desde que ela esteja livre de necessidade física e da necessidade de coação. Ou seja, se o intelecto tem o poder de escolha (liberdade da necessidade física) e a vontade pode ser exercida sem compulsão externa (liberdade da necessidade de coação), então os nossos pecados podem ser chamados de voluntários, e podemos ser responsabilizados para eles.

Críticos Arminianos por vezes acusam os calvinistas de acreditar que quando as pessoas são estupradas, mutiladas, assassinadas ou torturadas que em última análise é Deus que realiza estes atos hediondos. O que esta crítica perde, no entanto, é a distinção entre causas remotas e primárias. Pensadores calvinistas não diriam que Deus abusou de pessoas inocentes. Deus nunca é o malfeitor. Teólogos reformados sempre deixam claro que há uma diferença entre o papel de Deus em ordenar o que vem a acontecer e o papel da ação humana em verdadeira e voluntariamente executar a ação ordenada. Herodes e Pôncio Pilatos conspiraram contra Jesus, de acordo com a predestinação divina, mas sua conspiração ainda era má e culpável (Atos 4: 25-28; Gen. 50:20).

(Biblia A Mensagem) José respondeu: “Não é preciso ter medo. Por acaso estou no lugar de Deus? Será que vocês não percebem que planejaram o mal contra mim, mas Deus transformou o mal em bem, como podem ver aqui e agora, salvando a vida de muita gente? Acalmem-se, não há o que temer. Vou cuidar de vocês e de seus filhos”. Com essas palavras carinhosas, ele os tranquilizou.
Gênesis 50:19-21

Às vezes, é sugerido que a vontade humana na teologia reformada é apenas uma ilusão. O quadro pintado é de um Deus que obriga as pessoas fazer o que ele quer, mesmo que elas queiram ou não. Esta não é a visão das confissões reformadas ou da Bíblia. De acordo com Jesus, somente aqueles habilitados pelo Pai podem se chegar até ele, mas mesmo assim eles ainda devem tomar a decisão de ir (João 6:37, 44).

(Biblia A Mensagem) Jesus disse: “Eu sou o Pão da Vida. Quem vem a mim não terá mais nem sede nem fome. Digo isso com toda clareza porque vocês, ainda que me tenham visto em ação, não acreditam em mim. Aquele que o Pai me dá virá correndo para mim. E, uma vez que essa pessoa esteja comigo, eu a guardarei. Não permitirei que ela se vá. Desci do céu não para seguir meus caprichos, mas para cumprir a vontade daquele que me enviou.
“Posso resumir assim essa vontade: toda tarefa de que o Pai me incumbiu será concluída, sem a omissão de um único detalhe, para que no fim dos tempos tudo esteja como deve ser. É isto que o meu Pai quer: que quem vir o Filho, acreditar nele e no que ele faz e tornar-se seu seguidor entre na vida verdadeira, a vida eterna. Minha tarefa é mantê-los vivos e intactos até o fim dos tempos”.
Pelo fato de ele ter dito: “Sou o Pão que desceu do céu”, os judeus começaram a discutir com ele: “Este não é o filho de José? Não conhecemos seu pai? Não conhecemos sua mãe? Como pode ele agora dizer: ‘Desci do céu’ e esperar que alguém acredite nele?”.
Jesus disse: “Não briguem por minha causa. Vocês não estão no comando, mas sim o Pai, que me enviou. Ele traz a mim as pessoas — é o único modo de vir a mim. Só assim realizo o meu trabalho, reunindo as pessoas e preparando-as para o fim. Foi o que os profetas quiseram dizer quando escreveram: ‘Eles todos serão pessoalmente ensinados por Deus’. Quem quer que tenha passado algum tempo ouvindo o Pai, ouvindo de verdade e aprendendo, vem a mim para ser ensinado pessoalmente — para ver com os próprios olhos e ouvir de mim com seus ouvidos, pois tudo recebi diretamente do Pai. Ninguém viu o Pai a não ser aquele que convivia com ele — e vocês agora podem ver a mim.
João 6:35-46

A teologia reformada nega que nossas escolhas podem ser senão o que Deus decretou e que a nossa vontade é livre para escolher o que é bom, mas não nega a escolha e a vontade humana. Os Cânones de Dort deixam clara a soberania divina “não age nas pessoas como se fossem blocos e pedras; nem suprimi a vontade e as suas propriedades ou coage uma vontade relutante pela força”(III / IV.16).

Em suma, há uma vontade divina antes de todos as vontades humanas, e a vontade do homem não regenerado é escravizada pelo pecado. Ao mesmo tempo, as nossas escolhas más são realmente nossas escolhas, e elas têm consequências reais.

Tradução: https://blogs.thegospelcoalition.org/kevindeyoung/2016/06/03/theological-primer-freedom-of-the-will/